Meu caminho depois do Caminho

Conteúdos do Post

Fiz em 2001. A caminhada de 800km à Santiago de Compostela, na Espanha. Escolhi o caminho francês, como a maioria dos peregrinos que fazem este percurso: a pé, a cavalo ou de bicicleta. Fiz a pé. Já se passaram 18 anos!

A experiência foi única. Posso dizer que serviu para mudar minha vida toda, daquele ponto em diante. Em 33 dias vivi uma “amostra” de como é me sentir plena, conectada e feliz.

Mesmo com as dificuldades e desafios do caminho, vivi plenamente um propósito, tive um aprendizado que nenhuma outra experiência tinha me proporcionado e comecei a conhecer melhor minha essência.

A transformação foi consequência.

Eu tinha 28 anos quando ouvi falar a respeito do caminho e decidi que ia fazê-lo. Quando voltei do Caminho para o Brasil, mudei meu trabalho, rompi com um relacionamento de 12 anos, uma sociedade profissional de 4 anos, iniciei um mestrado, iniciei também um trabalho espiritual, conheci meu atual marido e companheiro incondicional, enfim, procurei colocar em prática um pouco do que tinha trazido na bagagem, daquela experiência riquíssima.

Mesmo com essas mudanças de rumo e novas escolhas para minha vida, percebo que só agora, passados 18 anos, é que tenho um entendimento mais maduro e lúcido dessa experiência.

Só agora sinto que aprendi de verdade alguns ensinamentos, tão ricos, tão importantes. Eles ficaram como pano de fundo todo esse tempo, mas hoje tem um sentido muito diferente. Acredito que hoje entendo melhor o que aconteceu lá. Sinto que há uma nova caminhada que está só começando…

O curioso é que me dei conta disso por que neste mês de setembro fui convidada a falar sobre o Caminho em uma entrevista na rádio BandRS. A convite do amigo Gilberto Gomes, encontrei com queridos peregrinos do caminho: Adriana Reis, Nádia Strasburguer, Ricardo Sessegolo e José Luiz Tomé no programa do Milton Cardoso.*1

Programa Repórter Bandeirantes com Milton Cardoso – Band RS – 13/09/2019

Foi uma sincronicidade bem especial. Tive oportunidade de relembrar experiências, como se tivesse aberto um baú precioso de recordações que esteve sempre ali, mas fazia muito tempo que não olhava. Para reavivar memórias antes da entrevista eu busquei alguns registros:

  1. meu álbum de fotos (imagem01),
  2. a credencial do peregrino (imagem02),
  3. a compostelana (imagem 03)
  4. o livro do autor Sérgio Reis (imagem 04), edição de 1998, que foi uma das primeiras inspirações para fazer o caminho e que tive contato no ano 2000
  5. o guia/mapa do Caminho de Santiago a a pé (imagem 05)
  6. meu diario de viagem (imagem 06)

Enfim, foi literalmente uma viagem no tempo. Me dei conta que foi também no mês de setembro daquele ano 2000 que tudo começou, foi quando decidi fazer o caminho. Sabia que precisava parar um pouco e ficar um tempo “sozinha”, em contato comigo de forma mais profunda. Revisar escolhas, me conhecer em situações desconhecidas. Aprender a interagir com o que me cerca de uma outra maneira.Aprendi muitas lições, como:

  1. Existe uma grande diferença, e eu costumava confundir a necessidade de receber proteção e auxilio com a vontade de ser carregada. A primeira me coloca como responsável pelas minhas escolhas e consequências, a segunda como vítima. Há uma enorme diferença de postura.
  2. Vi que a força e a resistência físicas respondem diretamente à determinação da mente e do coração.
  3. Sempre que pensei em controlar algo, ou o que estava por vir (achei que podia…) fiquei muito ansiosa e totalmente desconectada do fluxo produtivo de acontecimentos. Vi que me preocupar com o que não é do meu alcance no momento, só gera ansiedade. Viver cada etapa, cada dia, traz um roteiro bem claro do próximo trecho. Alcançar um objetivo e aprender o ensinamento da etapa, cria condições para o próximo objetivo, o esforço é menor e a satisfação muito maior.
  4. Todas as respostas estão na natureza e ao nosso alcance. Às vezes é difícil perceber e fazer essa leitura, mas elas continuam ali…
  5. Aprendi que nunca estamos sozinhos. Nunca.
  6. Quando conseguia ficar conectada, as sincronicidade foram fantásticas! Literalmente experimentei a magia do Caminho acontecendo.
  7. Cada conquista, crescimento e aprendizado teve um sentido muito amplificado toda vez que compartilhei com alguém. Me dei conta que ensinar é um meio maravilhoso de dividir e somar ao mesmo tempo!

Em 2001 fui para Santiago de Compostela e hoje, 18 anos depois, sei que há uma Caminhada que está só começando.

Me sinto como alguém que está em crescimento. Como ocorre com um bebê, que vira uma criança e depois um jovem, que passa os primeiros anos de vida formando sua identidade, se conhecendo, entendendo suas limitações e potencialidades, descobrindo o sentido de sua vida.

Quando chega na maioridade, é hora de assumir mais responsabilidades com o que aprendeu. Sinto que o Caminho está me trazendo essa possibilidade agora, 18 anos depois e com 47 anos de vida. Experimento a maioridade do Caminho em mim.

Começo a viver meu propósito de uma outra maneira. Vejo que há um caminho recém começando…. Agradeço este momento e comemoro a maioridade, ciente da responsabilidade assumida. Espero ter sabedoria, perseverança e conexão para dar os próximos passos. Ultreya y Suseya!*1

Herru Santiagu, Got Santiagu, Eultreia, eususeia, Deus adiuva nos.

Trecho do Codex Calixtinus, cuja tradução seria: Oh Senhor Santiago, Bom Senhor Santiago, Ultreya, Suseya, Proteja-nos Deus.

* 1. Do latim, as expressoes Ultreya e Suseya foram associadas ao Caminho de Santiago porque apareciam em algumas partes do Codex Calixtinus e eram entoadas pelos peregrinos em cânticos durante o percurso. Significam, basicamente siga em frente e para o alto!

Compartilhe esse post!
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on pinterest
Share on telegram